EUA abalam novos mercados

PAUL SAMUELSON

Traduo de Clara Allain

A economia mundial ingressou numa fase nova. Anteriormente a locomotiva norte-americana era a nica fora operante que freava a recesso na Europa e no Japo. Mas at pouco tempo atrs a recuperao dos Estados Unidos havia sido fraca e incerta.

Agora tudo isso chegou ao fim. A era do dinheiro fcil nos Estados Unidos acabou. O Federal Reserve (o banco central dos EUA) de Alan Greenspan foi levado a adotar uma poltica monetria restritiva. No incio de fevereiro, elevou repentinamente as taxas de juros de curto prazo; de l para c, os bnus de longo prazo entraram em queda contnua em Wall Street e este choque norte-americano desencadeou ondas de fraqueza financeira nos mercados de bnus do mundo inteiro.

H muito tempo no ocorria pnico e temor to difundido. Meu telefone, na universidade, vem tocando a toda hora, com ligaes de jornalistas ansiosos por entrevistas ou alguma coisa que os ajude a entender melhor a situao.

 provvel que tudo isso seja apenas o comeo.  provvel que o Federal Reserve ainda venha a impor mais apertos. A tendncia de alta do mercado de aes nos EUA e no resto do mundo no conseguir evitar este difcil teste.

Ser que o Federal Reserve americano comprometeu as to longamente esperadas recuperaes na Europa e no Japo?

Por que tudo isso aconteceu?

Quais seriam as reaes desejveis no campo macroeconmico por parte das autoridades da Europa e do Japo?

Apresento a seguir minha anlise do que aconteceu e tambm minhas recomendaes aos bancos centrais de pases importantes, que hoje precisam repensar suas polticas.

Em primeiro lugar,  preciso que compreendam que o Federal Reserve no sofreu uma simples mudana repentina de humor. O que move os mercados e move as autoridades do Fed  o estupendo crescimento do PIB real dos Estados Unidos, que chegou a 7% anuais no ltimo trimestre de 1993. Ningum, racional ou irracionalmente, poderia ter previsto este acontecimento.

Praticamente todos os analistas econmicos elevaram suas projees referentes ao crescimento econmico deste ano nos Estados Unidos. Taxas de 3% ou 4% hoje parecem plausveis, baseando-se apenas no mpeto atual. O prognstico consensual que estava sendo feito antes apontava para algo entre 2% e 3%.

Observem que todos, de fato, esperam uma considervel desacelerao do crescimento, prevendo que ele no manter os picos recentes. As piores nevascas do sculo nos Estados Unidos, somadas ao grave terremoto na Califrnia, vo mascarar temporariamente a fora da economia no primeiro trimestre. Mas mesmo assim  bem possvel que nos prximos 18 meses nosso ndice de desemprego caia para 6% ou menos, enquanto nossos nveis de produo comeam a tensionar nossa capacidade manufatureira.

Poderamos perguntar: "Por que um crescimento norte-americano mais forte implicaria problemas para a recuperao global? Com uma renda maior, os norte-americanos oferecero mercados de exportao mais fortes para a Europa em geral, para os pases do Sudeste Asitico e para o mundo em vias de desenvolvimento. Por que os mercados acionrios de Madri, Londres, Frankfurt, Tquio, Milo ou Cingapura no prosperam com a notcia da nova fora econmica dos EUA?"

 assim que as pessoas costumavam argumentar. Aes e bnus costumavam ser investimentos alternativos. Um servia como "hedge" (proteo) para o outro. Quando a produo aumentava, as aes tambm disparavam e os bnus caam com o aumento induzido nas taxas de juros.

No tem sido assim nos ltimos 15 anos. Com frequncia cada vez maior, as aes e os bnus parecem mover-se juntos. Quando os bancos centrais derrubam os preos dos ttulos, as aes tendem a acompanh-los -mesmo quando o aperto do crdito foi desencadeado pela perspectiva de lucros e produo em alta.

Vimos um exemplo disso em 1987. A queda de Wall Street ocorreu na "segunda-feira negra", 19 de outubro. As aes em Nova York caram 22% num nico dia. O exemplo norte-americano foi seguido imediatamente por um massacre financeiro no exterior, onde as aes caram em mdia ainda mais do que nos EUA.

Foi uma fraqueza do PIB norte-americano ou sua fora que causou a queda de outubro de 1987? Evidentemente foi sua fora, e no sua fraqueza: no ltimo trimestre de 1987 os EUA tiveram uma taxa de crescimento econmico anual de 6% -a maior taxa de crescimento desde 1983, e que no voltou a ser equiparada novamente at o final de 1993.

Ser que o Federal Reserve est um pouco paranico diante dos perigos atuais da inflao? Sim. Todos os presidentes de bancos centrais so dados a essa fobia. Ser que o dr. Greenspan e seus colegas vo terminar por exagerar no aperto ao crdito? Sim,  bastante provvel. Mas, sendo realista, sou obrigado a admitir que nossas taxas de juros tendero a aumentar at que comecem a surgir sinais de fraqueza indubitvel na demanda.

Os investidores norte-americanos vm aprendendo a enxergar a longo prazo: a comprar aes e conserv-las por dcadas, em lugar de tentar prever os altos e baixos do ciclo empresarial. Por essa razo, talvez no ocorra uma queda em Wall Street em 1994. Por outro lado, em comparao com os custos de reproduo de fbricas e instalaes, as empresas norte-americanas esto sendo avaliadas generosamente depois de nosso extenso perodo de alta das aes. E qualquer tendncia contnua a quedas futuras nos principais ndices de aes far com que os investidores voltem a adotar a ansiosa perspectiva de curto prazo.

O que me preocupa  a sia e a Europa. Hoje em dia, os mercados monetrios mundiais tendem a estar estreitamente vinculados. Os aumentos nas taxas de juros nominais e reais que os EUA podem suportar poderiam ser prejudiciais para uma recuperao sadia em 1994-95 para o resto do mundo.

Sempre  fcil fazer recomendaes de prudncia ao Federal Reserve:

No exagere na histeria antiinflacionria. Se e quando ocorrerem sinais de que as restries monetrias estiverem sufocando a recuperao dos Estados Unidos, prepare-se para voltar  ttica de manter baixas as taxas de juros.

Tambm tenho recomendaes a fazer aos governos estrangeiros.

Os bancos centrais europeus, individualmente e em conjuno informal, fariam bem em no deixar que suas taxas de juros aumentem proporcionalmente ao aumento norte-americano. Para isso ser preciso um pouco mais de relaxamento no crdito.

Sim, isso poderia ocasionar uma certa fraqueza das paridades monetrias europias em relao ao dlar. Mas isso no  negativo. E se vrios pases atuassem em conjunto -Espanha, Itlia, Frana e Reino Unido-, uma modesta apreciao do dlar melhoraria a competitividade europia, de maneira muito oportuna.

Com um bom ajuste de suas polticas, a fora norte-americana pode acabar se mostrando benfica para a Europa.
